De modo geral a democracia representativa vive uma grave crise. E aqui ela nunca cumpriu de fato o papel que lhe fora assegurado no âmbito da Constituição de 1988, pois, tal como a República, não permitiu a cidadania social a uma ampla parcela da população, com destaque para os afrodescendentes e de modo geral aos pobres. E o pouco conquistado a duras penas vem sendo paulatinamente descontruído sob o falso argumento de que a sua manutenção atrapalha o desenvolvimento. E muita gente por aí acaba acreditando nessa grande mentira.
O projeto da centro-esquerda, tendo como referência a Espanha de Pedro Sanchez, de uma vez à frente do governo recuperar esses direitos, especificamente os de cunho trabalhista, até agora não se materializou. De alguma maneira caiu no esquecimento. Sendo assim, a esperança depositada nesse modelo de democracia concretamente se perdeu, ou está a se perder.
Essa fase do desenvolvimento econômico de base capitalista neoliberal, de desmonte do Estado, é incompatível com a democracia. Razão pela qual ela está a ruir. Seja aqui, nos Estados Unidos e/ou na Europa onde esse modelo perdurou por décadas seguidas.
Infelizmente, a democracia tal como se conhece por aqui existe de fato para os ricos que gozando efetivamente de liberdade e tendo sob seu controle e para sua proteção todo o aparato estatal o utiliza para subjugar as camadas sociais subalternas objetivando impedi-las de reivindicar seus direitos e em prol de uma democracia e cidadania de base ampliada.
Temer e, em seguida, Bolsonaro, na sua sanha troglodita, apenas aprofundaram esse desgaste que a democracia há muito vem enfrentando. Modo este que mesmo tendo o voto como instrumento de escolha a maioria pode muito bem eleger um tirano para conduzir o seu destino. O que também revela que nesse modelo de democracia a população possui pouco ou nenhum poder de fato.
Apenas é chamada periodicamente a votar, porém sem autonomia do ponto de vista da sua consciência de classe pois lhe falta compreensão política e ação organizada para tanto.
Alguém, com conhecimento sobre o assunto, já nos disse que a retomada ou construção dessa consciência somente será possível através da democracia direta e não representativa. “Não é só decidir quem vai decidir. É decidir de fato. Os cidadãos têm de encontrar mecanismos de decisão nos seus locais de trabalho, hospitais e escolas que frequentam...”
Sendo assim, a democracia brasileira de caráter meramente representativa no estágio em que se encontra não passa de um simulacro vez que funciona em malha estreita, de modo minimalista, restrito, com a cidadania limitada a poucos e barreiras sendo criadas visando impedir a sua ampliação. A própria Constituição que em tese lhe dá sustentação jurídica está em processo de desmonte.
Acho que pela brevidade do texto há muito ainda a ser dito sobre o tema. Entretanto, essas observações aplicam-se a nós, brasileiros, já que, aqui, a democracia representativa possui aspectos meramente formais. E o mais trágico em tudo isso é que, ao contrário do que ocorreu na Europa e em outros países, no Brasil esta se exauriu sem ter alcançado a sua fase de apogeu. #crisedademocracia #DemocraciaEmRisco #democracialiberal
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